9 de Agosto: Dia Internacional dos Povos Indígenas
Em celebração ao Dia Internacional dos Povos Indígenas, comemorado em 9 de agosto, os Núcleos do Partido dos Trabalhadores em Madrid e na Irlanda organizaram conjuntamente, neste sábado, 8 de agosto, uma live especial dedicada às vozes, aos direitos, às lutas e ao protagonismo dos povos originários
O encontro reuniu lideranças indígenas de diferentes povos e regiões do Brasil e colocou no centro da conversa quem deve ocupar esse lugar quando se discutem políticas, direitos e futuro dos povos indígenas: os próprios indígenas.
Participaram da live Quenes Gonzaga Payayá, liderança do povo Payayá e coordenadora nacional do Setorial de Povos Indígenas do PT; Alessandra Korap Munduruku, liderança do povo Munduruku, reconhecida por sua atuação na defesa dos territórios indígenas, dos rios e da floresta amazônica; e Clóvis Moreira Saldanha, o Clóvis Curubão, liderança indígena do povo Tariano, ex-prefeito de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas.
A abertura e o encerramento foram realizados por Renecéya de Mello, coordenadora do Núcleo do PT Madrid e idealizadora da atividade. A mediação ficou a cargo de Fernanda Otero, coordenadora do Núcleo do PT na Irlanda, jornalista e escritora, com atuação profissional na Fundação Perseu Abramo.
Do 19 de abril ao 9 de agosto
No Brasil, o 19 de abril — Dia dos Povos Indígenas — é uma data conhecida desde a infância e presente na memória escolar de várias gerações. Talvez justamente por termos uma data nacional tão consolidada, muitos brasileiros ainda desconheçam ou pouco celebrem o 9 de agosto, Dia Internacional dos Povos Indígenas.
A realização da live pelos Núcleos do PT Madrid e Irlanda partiu também da necessidade de dar maior visibilidade a essa data e à dimensão internacional da luta pelos direitos dos povos originários.
Na abertura, Renecéya lembrou que falar dos povos indígenas não significa falar apenas da história brasileira. Significa falar do presente e também do futuro.
O Brasil possui uma extraordinária diversidade de povos, línguas, culturas, tradições, conhecimentos e formas de compreender a relação entre o ser humano, a comunidade e a natureza. Uma riqueza que não se mede apenas em dinheiro, mas em ancestralidade, memória, cultura, saberes e vida.
Celebrar essa diversidade, entretanto, exige também falar das lutas: pela demarcação dos territórios, contra o garimpo ilegal e o desmatamento, pela preservação dos rios e das florestas, pelo acesso à saúde e à educação e, sobretudo, pelo direito dos povos indígenas de serem protagonistas das decisões que dizem respeito às suas próprias vidas.
“Nossa história não foi criada em 5 de outubro de 1988”…
“Nossa história não foi criada no dia 5 de outubro”
Alessandra Korap Munduruku
O marco temporal esteve entre os principais temas do encontro e ganhou força especialmente na fala de Alessandra Korap Munduruku.
Ao abordar a tese que busca vincular o reconhecimento do direito à terra à presença indígena no território em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal, Alessandra confrontou essa lógica a partir da própria ancestralidade dos povos originários.
“Nossa história não foi criada no dia 5 de outubro”, afirmou, lembrando que os povos indígenas possuem histórias, cosmologias, línguas e relações com seus territórios construídas ao longo de milhares de anos.
Com ironia, Alessandra falou também sobre a necessidade de procurar os “papéis” exigidos pela sociedade não indígena para comprovar uma presença que antecede em séculos a própria formação do Estado brasileiro.
A reflexão expôs uma das contradições mais profundas do marco temporal: exigir dos povos originários documentos produzidos segundo uma lógica jurídica posterior para provar sua relação ancestral com terras das quais, em muitos casos, foram expulsos ao longo da história.
Alessandra lembrou que existem outros registros dessa presença: a língua, os lugares sagrados, a memória dos anciãos, os conhecimentos transmitidos entre gerações e a própria relação espiritual e cultural com os territórios.
Mas, como observou durante a conversa, diante de uma sociedade que reconhece sobretudo aquilo que está documentado, os povos indígenas também passaram a buscar esses registros: “já que o branco só acredita em papel”.
A demarcação, destacou, é urgente não somente para garantir a sobrevivência dos povos. Quando o território indígena é invadido, chegam o garimpo, a mineração, o agronegócio e o desmatamento. Defender os territórios significa também defender rios, florestas e condições de vida que ultrapassam as fronteiras das próprias comunidades.
Povos indígenas falando por si
“Ou nós, indígenas, vamos aprender a lidar com isso, ou as pessoas não indígenas vão continuar nos espaços políticos falando por nós”
Quenes Payayá
Uma ideia atravessou praticamente todo o encontro: não é possível construir políticas para os povos indígenas sem a participação dos próprios povos indígenas.
Quenes Payayá enfatizou repetidamente a importância do lugar de fala e da representação direta nos espaços políticos e institucionais.
Socióloga e militante petista há cerca de 25 anos, Quenes relatou sua experiência política e sua atuação à frente do Setorial Nacional de Povos Indígenas do PT. Para ela, ampliar a presença indígena nos partidos, nos parlamentos e nos espaços de formulação de políticas públicas é parte essencial da luta contemporânea.
A coordenadora chamou atenção também para as diferentes realidades vividas pelos povos indígenas no país. Há povos com territórios demarcados, mas não suficientemente protegidos; povos cujas terras ainda aguardam demarcação; e indígenas que foram expulsos de seus territórios e passaram a viver nos centros urbanos, onde procuram reconstruir vínculos com sua ancestralidade e seu pertencimento.
Quenes defendeu que essa diversidade precisa estar representada politicamente.
“Ou nós, indígenas, vamos aprender a lidar com isso, ou as pessoas não indígenas vão continuar nos espaços políticos falando por nós”, alertou Quenes Payayá.
Durante sua participação, ela também criticou a discussão de questões relacionadas ao marco temporal sem a participação presencial das lideranças indígenas e reforçou que um país verdadeiramente democrático deve assegurar a presença dos povos diretamente atingidos pelas decisões.
Participação política como instrumento de transformação
A presença de Alessandra Korap Munduruku e Clóvis Curubão como candidatos nas eleições de 2026 levou a conversa também para a importância da representação indígena nos espaços legislativos.
Alessandra falou da necessidade de os próprios indígenas ocuparem os lugares onde hoje são aprovadas leis que afetam seus territórios, rios, florestas e modos de vida.
Depois de séculos em que outras pessoas decidiram por eles, afirmou que chegou também a hora de os indígenas “pegarem a caneta” e participarem diretamente dessas decisões.
Quenes Payayá destacou que o Setorial Nacional de Povos Indígenas do PT trabalha justamente para fortalecer essa presença política e informou que o partido deverá contar com mais de 34 candidaturas indígenas nas eleições.
A representação política, segundo ela, não está separada da luta territorial. Pelo contrário: é uma maneira de levar as reivindicações das comunidades aos espaços em que são definidas as políticas públicas e as leis do país.
Clóvis Curubão: da aldeia à gestão pública
A participação de Clóvis Curubão trouxe para o encontro uma experiência concreta de protagonismo indígena na administração pública.
Indígena do povo Tariano, Clóvis governou São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, por dois mandatos. O município possui uma das mais expressivas presenças indígenas do país e reúne dezenas de povos e línguas.
Clóvis contou que sua gestão buscou trabalhar a partir da escuta das comunidades e dos anciãos e destacou os enormes desafios de administrar um território de grandes dimensões, com centenas de comunidades indígenas e localidades cujo acesso depende de longos deslocamentos pelos rios, cachoeiras e trilhas da região.
Um dos exemplos mais marcantes apresentados durante a live foi o da educação
Segundo Clóvis, o município possui mais de duzentas escolas municipais em aldeias indígenas. Ele relatou as dificuldades logísticas para construir escolas em regiões remotas, onde transportar cimento e outros materiais pode exigir a travessia de diversas cachoeiras e, depois, horas de caminhada.
Em algumas localidades, contou, a própria comunidade participou do transporte dos materiais, em um modelo de gestão participativa que envolveu jovens, adultos e anciãos.
Sua experiência mostrou que administrar um município indígena exige políticas públicas adaptadas à realidade dos territórios — e não simplesmente a reprodução de modelos pensados para cidades onde as distâncias e as condições de acesso são completamente diferentes.
Educação, línguas e diversidade
A conversa sobre a experiência de São Gabriel da Cachoeira levou também a um dos momentos mais ricos da live: a discussão sobre as línguas indígenas.
Questionado sobre a possibilidade de adotar uma única língua indígena, Clóvis rejeitou a ideia.
Cada povo, explicou, deve ter liberdade para preservar e utilizar sua própria língua materna.
São Gabriel da Cachoeira possui línguas indígenas oficializadas, mas a diversidade linguística do município vai muito além delas. Clóvis explicou que professores pertencentes às próprias etnias trabalham nas comunidades, contribuindo para a transmissão das línguas e dos conhecimentos tradicionais.
Quenes aproveitou o tema para defender o fortalecimento da educação escolar indígena e a criação de uma estrutura específica dentro do Ministério da Educação capaz de tratar das particularidades dessa realidade.
A discussão evidenciou que preservar uma língua significa preservar muito mais do que palavras: significa proteger uma forma de compreender o mundo, transmitir conhecimentos e manter viva a memória de um povo.
Território, rios e floresta: uma luta que interessa ao planeta
Outro ponto central da live foi a relação entre a proteção dos povos indígenas e o enfrentamento das mudanças climáticas.
Alessandra Korap Munduruku relacionou diretamente a demarcação das terras indígenas à preservação ambiental. Quando os territórios ficam desprotegidos, lembrou, avançam o desmatamento, o garimpo, a mineração e outras formas de exploração.
Ela chamou atenção ainda para as consequências da contaminação por mercúrio decorrente do garimpo, que atinge os rios, os peixes e, consequentemente, os próprios corpos indígenas.
A defesa da água apareceu diversas vezes em sua fala. Para Alessandra, existe uma conexão direta entre a luta indígena e a vida de quem mora nas cidades: quando um rio seca ou é contaminado, seus efeitos não permanecem restritos ao território indígena.
Quenes Payayá reforçou essa perspectiva ao afirmar que os povos indígenas fazem parte da solução para a crise climática justamente porque sua relação com a terra não está baseada exclusivamente no valor monetário.
Conhecimento, espiritualidade, ancestralidade e responsabilidade com as futuras gerações fazem parte de outra concepção de riqueza e desenvolvimento
“Nosso marco é ancestral, não temporal”
Quenes
“Nossa luta é resistir para existir, para conquistar nosso espaço”.
Clovis
Nas palavras finais, Quenes sintetizou uma das mensagens mais fortes do encontro: “Nosso marco é ancestral, não é temporal”.
A frase resume uma reivindicação que atravessou toda a live.
Os povos indígenas não começaram a existir com a Constituição de 1988, nem com a chegada dos colonizadores ao território brasileiro. São povos originários, com histórias e formas próprias de organização que antecedem a formação do Brasil.
Por isso, defender seus direitos significa também reconhecer que nenhuma democracia pode ser plenamente construída quando aqueles que primeiro habitavam o território precisam continuamente provar seu direito de existir nele.
Clóvis resumiu essa trajetória em outra frase no encerramento: “Nossa luta é resistir para existir, para conquistar nosso espaço”.
Uma iniciativa conjunta dos Núcleos do PT Madrid e Irlanda
A organização conjunta da live pelos Núcleos do PT Madrid e PT Irlanda reafirma também o papel da militância petista no exterior na promoção de debates relacionados ao Brasil e às grandes questões internacionais.
Os Núcleos do PT no exterior vêm ampliando sua articulação e buscando aproximar brasileiros que vivem em diferentes países dos debates políticos, sociais e democráticos do Brasil.
Estar geograficamente distante não significa estar distante da realidade brasileira
Ao contrário: a atuação política no exterior permite construir pontes, ampliar diálogos e contribuir para que temas fundamentais para o país também encontrem espaços de reflexão e visibilidade internacional.
Ao organizar uma atividade em que as próprias lideranças indígenas ocuparam o centro da palavra, os Núcleos do PT Madrid e Irlanda buscaram contribuir para essa escuta.
Como destacou Renecéya no encerramento, os povos indígenas não são povos do passado. São povos do presente, protagonistas do presente e fundamentais para o futuro.
Defender seus territórios, suas culturas, suas línguas e seus direitos não interessa somente aos povos indígenas. Quando uma terra indígena é protegida, protegem-se também florestas, rios, biodiversidade e conhecimentos essenciais diante de uma das maiores ameaças de nosso tempo: as mudanças climáticas.
O Dia Internacional dos Povos Indígenas é, portanto, uma celebração da ancestralidade e da extraordinária diversidade dos povos originários, mas é também um chamado à defesa de seus direitos no presente.
Que o 9 de agosto não seja apenas uma data no calendário, mas uma oportunidade permanente para ouvir, conhecer, respeitar e valorizar os povos indígenas e seu protagonismo.
Porque não há democracia plena sem respeito aos povos indígenas, aos seus territórios, às suas culturas, às suas línguas e, sobretudo, ao seu direito de falar por si e participar das decisões sobre o presente e o futuro do Brasil.
Confira a live completa no nosso Canal YouTube: Núcleo do PT Madrid
Assista à íntegra do encontro “Dia Internacional dos Povos Indígenas — Vozes, Direitos e Resistência”, organizado pelos Núcleos do PT Madrid e Irlanda, com a participação de Quenes Gonzaga Payayá, Alessandra Korap Munduruku e Clóvis Curubão, mediação de Fernanda Otero e abertura e encerramento de Renecéya de Mello.
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