qua. set 30th, 2026

América Latina e Caribe no centro do debate anti-imperialista pela paz

Renecéya Mara de Mello Assis representou o Núcleo do Partido dos Trabalhadores do Brasil em Madrid na mesa América Latina y el Caribe: zona de paz contra la agresión imperialista

O Núcleo do PT Madrid participou, no sábado, 26 de setembro, do debate “América Latina y el Caribe: zona de paz contra la agresión imperialista”, realizado durante a Fiesta del Partido Comunista de España (PCE), em Rivas Vaciamadrid.

Representando o Núcleo do Partido dos Trabalhadores do Brasil em Madrid, participou do debate Renecéya Mara de Mello Assis, coordenadora do Núcleo do PT Madrid.

A atividade aconteceu das 12h30 às 14h no Espacio Internacionalista, instalado dentro do Recinto Ferial Auditorio Miguel Ríos, um dos espaços que concentraram debates políticos e internacionais ao longo da Fiesta del PCE. A mesa integrou a programação oficial do evento.

A mesa foi moderada por Cristina Simó Alcaraz, da direção feminista do PCE, e reuniu Emilio Lozada, do Partido Comunista de Cuba; Alejandro Rusconi, argentino ligado ao Foro de São Paulo e à CELAC Social; Daisy Viviana Aparicio Bonilla, do Partido Comunista Colombiano e do Pacto Histórico; Jana Silverman, dos Democratic Socialists of America (DSA); Gustavo Cabrera, do Partido Comunista do Uruguai e da Frente Ampla; e Renecéya Mara de Mello, pelo Núcleo do PT Madrid. A composição efetiva da mesa também foi registrada posteriormente pelo jornal Mundo Obrero.

Do PT ao “L” de Lula

A participação brasileira começou de maneira descontraída. Uma confusão inicial entre o Partido dos Trabalhadores do Brasil e o Partido do Trabalho da Bélgica, conhecido pela sigla PTB/PVDA, deu oportunidade para Renecéya apresentar ao público o partido brasileiro e o trabalho desenvolvido por seu Núcleo em Madrid.

Ela convidou os presentes a conhecerem uma das tradicionais consignas petistas — “Partido, Partido é dos Trabalhadores” — e explicou também o significado do gesto do “L” de Lula, em um momento de interação com a plateia antes de iniciar sua exposição política.

Da onda progressista à crise brasileira

Renecéya iniciou sua fala recuperando uma imagem marcante do início deste século: fotografias que reuniam dirigentes como Hugo Chávez, Lula, Néstor Kirchner e Evo Morales, símbolos de um período em que diferentes governos de esquerda e centro-esquerda chegaram ao poder na América Latina.

Sem apresentar esses governos como experiências iguais, ela destacou que aquele período expressava um momento de fortalecimento de agendas de inclusão social, integração regional, soberania e redução das desigualdades.

No caso brasileiro, recordou os dois primeiros governos de Luiz Inácio Lula da Silva, entre 2003 e 2010, e citou a pesquisa CNI/Ibope de dezembro de 2010, segundo a qual Lula encerrou o mandato com 87% de aprovação pessoal, enquanto 80% avaliavam seu governo como ótimo ou bom.

A partir daí, Renecéya percorreu os acontecimentos que transformaram profundamente a política brasileira: a eleição e a reeleição de Dilma Rousseff, o impeachment de 2016 — aprovado no Senado por 61 votos a 20 — e a interpretação do PT e de setores da esquerda brasileira e latino-americana de que aquele processo representou um golpe parlamentar. Institucionalmente, o afastamento ocorreu por meio do processo de impeachment previsto na legislação brasileira.

Também abordou a prisão de Lula e sua ausência da eleição presidencial de 2018. Lula permaneceu 580 dias preso. Posteriormente, o Supremo Tribunal Federal anulou decisões das ações julgadas em Curitiba por entender que aquela vara federal não tinha competência para os casos, e o STF reconheceu a parcialidade do então juiz Sergio Moro na ação do triplex.

Renecéya lembrou ainda o retorno de Lula à disputa eleitoral e a eleição de 2022, na qual ele recebeu 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Jair Bolsonaro.

Em seguida, mencionou os ataques de 8 de janeiro de 2023 às sedes dos Três Poderes, em Brasília, e as investigações e julgamentos posteriores sobre a tentativa de impedir a transição democrática. Em setembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão no julgamento do núcleo principal da tentativa de golpe de Estado.

Eleições de 2026 e soberania

A partir dessa retrospectiva, a intervenção chegou ao momento atual. O primeiro turno das eleições brasileiras está marcado para 4 de outubro de 2026, com eventual segundo turno em 25 de outubro.

Para Renecéya, a disputa de 2026 precisa ser compreendida também em sua dimensão internacional.

Na mesa, ela abordou as relações entre o Brasil e os Estados Unidos sob o governo de Donald Trump, incluindo as novas tarifas impostas a produtos brasileiros. Em julho, medidas norte-americanas baseadas na Seção 301 estabeleceram sobretaxas de 25% sobre determinados produtos brasileiros e uma tarifa adicional de 12,5% em outra investigação que abrangeu diversas economias. Brasil e Estados Unidos mantiveram negociações comerciais ao longo dos meses seguintes.

Renecéya ressaltou que cooperação entre os dois países é necessária, mas defendeu que ela não pode significar subordinação. A posição dialoga com a opção do governo brasileiro de manter as negociações antes de adotar eventuais medidas de reciprocidade contra as tarifas norte-americanas.

A poucos dias do debate na Fiesta del PCE, Lula havia levado a questão da soberania à Assembleia Geral das Nações Unidas. Em 22 de setembro, alertou contra interferências estrangeiras no processo eleitoral brasileiro e afirmou que as decisões sobre o futuro político do país cabem aos brasileiros.

Foi também esse o centro da reflexão apresentada pelo PT Madrid na mesa.

Renecéya perguntou quem deve decidir o futuro político do Brasil, da Argentina, da Colômbia, do Chile, da Bolívia, da Venezuela, do México ou de qualquer outro país latino-americano. Sua resposta foi a defesa da autodeterminação: cada povo deve decidir seu próprio caminho.

A coordenadora do Núcleo do PT Madrid ressaltou ainda que respeitar a democracia significa aceitar o resultado das urnas independentemente de quem vença — esquerda, direita ou outra força política — e que as divergências devem ser resolvidas dentro das instituições democráticas.

Ao comparar o ciclo progressista do início do século com a América Latina atual, Renecéya destacou uma das principais conclusões de sua intervenção: “a democracia nunca pode ser dada como definitivamente conquistada”.

Para ela, um dos grandes desafios contemporâneos da América Latina é justamente defender a democracia sem renunciar à soberania, fortalecer a integração regional sem exigir que todos os governos sejam iguais e manter relações com Estados Unidos, Europa, China e o restante do mundo a partir do respeito mútuo.

A intervenção foi encerrada com uma síntese da mensagem levada pelo Núcleo do PT Madrid ao debate:

“Cooperação internacional, sim. Diálogo, sempre. Mas com democracia, soberania e respeito à vontade dos povos.”

Assista à intervenção

O vídeo abaixo apresenta a participação de Renecéya Mara de Mello Assis, representando o Núcleo do Partido dos Trabalhadores do Brasil em Madrid, na mesa “América Latina y el Caribe: zona de paz contra la agresión imperialista”, durante a Fiesta del PCE 2026.


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